quarta-feira, 15 de março de 2017

Quadrinhos - Fanzine de Banda Desenhada - Editado do nº 0 (Abril 1972) ao nº 8 (Nov.1974) - Editor: Vasco Granja

                                                      Número 0 - Abril 1972
 

Quadrinhos, Fanzine de Banda Desenhada, de Vasco Granja, é um dos oito fanzines editados em 1972, Ano I dos zines em Portugal.

Vale a pena clicar sobre a capa deste nº 0, com data de Abril de 1972, para ler o sumário da edição inicial, onde já fala de "Um fanzine português: Argon", editado quatro meses antes.

Veja-se, em síntese, o conteúdo deste número inicial:
- "Definição de Banda Desenhada"; 

- "O Prémio Saint-Michel 1972 de promoção da banda desenhada"; 
- "Phénix" nº 19; 
- "Encontro com Hogarth"; 
- "Encontro com Gigi"; 
- "Feiffer em «Charlie»"; 
- "La bande dessinée peut être Educative", crítica a livro de Antoine Roux"; 
- Notícia sobre a revista "Vampirella" - nº 15 - Jan. 1972, com Direcção de James Warren, e colaborações de Jose Bea, Richard Corben, Luis Garcia, Jose Gonzalez e Nebot."; 
- Prefácio de Jacques Lob para Hypocrite et le monstre de Loch-Ness"; 
- Curta notícia intitulada "Um fanzine português: Argon".

Vários dos textos eram da autoria de Vasco Granja, editor e redactor, mas que também aproveitava/traduzia textos de outras publicações.

De salientar o facto de todos os textos do fanzine serem dactilografados, trabalho artesanal efectuado pelo próprio Granja.

Outro aspecto que merece referência: Vasco Granja nasceu a 10 de Julho de 1925, quando começou a editar este fanzine tinha portanto 46 anos.
Ora o primeiro verbete com o neologismo "fanzine" que existe em dicionário é no da Porto Editora, 8ª edição, datado de 1998, onde começa por dizer:


Fanzine -s.m. -Revista editada por jovens.......
 
Portanto, está bem a indicação de "substantivo masculino" (na mais recente edição, de 2009, a indicação passou a ser n.m., ou seja, nome masculino).

O que não está bem é a indicação de os editores de fanzines serem obrigatoriamente jovens, porque, tanto nos Estados Unidos como em França, primeiros países onde se editaram fanzines, os faneditores eram habitualmente adultos, mesmo que ainda jovens adultos.

Em Portugal, dos oito fanzines editados em 1972, Ano I dos fanzines portugueses, quase todos eles foram editados por adultos. Vasco Granja (nascido em 1925) foi um deles.


                                                             Número 1 - Maio de 1972

O nº 1 manteve-se dedicado apenas à publicação de notícias, entrevistas e artigos, aparecendo um deles assinado por Jorge Magalhães, nome que viria mais tarde a ser essencialmente prestigiado como argumentista, mas que aqui escreveu acerca de "Cinema e História em Quadrinhos. Duas Artes afins".


                                                            Número 2 - Junho 1972

Curiosamente, nesse início da década de setenta do século passado, Jorge Magalhães, mais tarde prolífico argumentista de BD e coordenador da revista Mundo de Aventuras, estava em Angola, como se vê no presente número deste fanzine, onde se lê:

"O nosso colaborador Jorge Magalhães está interessado em adquirir os números 713 a 748 do "Mosquito". Endereço: Caixa Postal 21 - Porto Aboim - Angola."


Nas entrevistas está uma assinada por Henri Filippini a Claire Bretecher, que fala da sua série "Gnan-Gnans", aceite por Yvan Delporte, chefe de redacção da revista "Spirou", embora o seu substituto tenha suprimido a série (com bastante desagrado de Bretecher), ao que parece por tê-la achado parecida com os "Peanuts", de Charles Schulz.
Destaque ainda neste nº 2 para a rubrica "Fanzinelogia", onde são recenseados vários fanzines, entre os quais:

- Ploff, órgão do Cartoon Museum, que contém a relação da obra de Russ Manning;
- Zine-Zone, nº 5, Jan.Fev.1972, salienta-se um texto de J.P.Dionnet acerca de Murphy Anderson;
- Impulse (também tivemos em Portugal o fanzine Impulso), cujo primeiro número, sob apreciação, é totalmente composto por desenhos originais de Joe Sinnot, Roy Krenkel, Bill Elder e outros. O seu editor é indicado na ficha técnica: Clifford Letovsky (17, Holly Road, Hampstead 254, Québec, Montreal, Canada)
- Alfred - Elo de ligação da Société Française de Bandes Dessinées, refere no nº28 (Abril de 1972) o encontro de Lucca, que estava nessa data já a ser preparado (para o mês de Outubro daquele ano) por Rinaldo Traini (amigo de Vasco Granja, e que eu também conheci pessoalmente). A quase totalidade de informações sobre novas edições estava a cargo de Jean Pierre Dionnet, e a direcção do fanzine apresentava o nome de Claude Moliterni, já falecido.
- Stripschrift - Fanzine holandês, o que sempre dificultou a sua difusão em Portugal, mal grado a qualidade dos seus colaboradores.
- Witzend - "Um dos mais belos fanzines publicados nos Estados Unidos (...) O número 8 (Verão de 1971) insere trabalhos de Wallace Wood, Bob Stewart, Ralph Reese (...) Steve Ditko (...), uma interpretação extremamente audaciosa de "The Hunting of the Snark", segundo Lewis Carroll, desenhada por John Adkins Richardson, e ainda magníficas ilustrações de Frank Frazetta para o poema de Edgar Allan Pöe, "The City in the Sea".


                                                   Número 3 - Setembro de 1972

Como se poderá ler perfeitamente (basta clicar em cima da imagem), a capa está ilustrada com o auto-retrato desenhado pelo artista-autor de BD espanhol Emilio Freixas.
Decorrendo logicamente desse pormenor, logo na página 3 é reproduzida uma prancha da bd "Los Dragones del Tibet", que no cabeçalho indica como autores, J.Canellas Casals, guion, Emilio Freixas, dibujos.
E ainda referente ao ilustre autor de BD, escreve o crítico e estudioso Antonio Lara, no fanzine "Bang!" dessa data (e não, claro, no homónimo recente francês):
"La originalidad y autarquia del estilo de Freixas no tiene tampoco paralelos en la historia del tebeo. Pocos artistas pueden presentar una técnica tan personal, que prácticamente no debe nada a nadie.(...)"


"Nico Rosso em Lisboa" é o título da entrevista, feita por Vasco Granja, que começa por apresentá-lo:
"O desenhador brasileiro Nico Rosso esteve de passagem durante dois dias no início de uma viagem de retorno à Europa para relembrar o passado (Nico nasceu na Itália, mas emigrou para o Brasil há vinte e cinco anos, para reconstruir a sua existência, pois a guerra devorara os seus bens).
Nico Rosso pode ser considerado como o mais famoso desenhador de temas fantásticos do Brasil. Entre as suas criações mais famosas contam-se as bandas desenhadas da série "Zé do Caixão", com argumentos escritos por Rubens Francisco Lucchetti (o mais fecundo escritor brasileiro de temas fantásticos), que se baseia na obra cinematográfica de José Mojica Marins, um realizador praticamente desconhecido fora do seu país. (...)
(Nota do bloguista: José Mojica Marins já esteve em Portugal, num festival de cinema de terror).


                                                  Número 4 - Maio de 1973

(Nota na última página, em rodapé do artigo dedicado a Hergé:

"O desenho de Tintin e Milou impresso na capa do presente número de 'Quadrinhos' foi expressamente executado por Hergé como homenagem aos seus numerosos admiradores portugueses").
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No seu conteúdo sobressaem os artigos:
1. Eduardo Teixeira Coelho - Uma presença viva no "Jornal do Cuto" - por Vasco Granja
2. Alguns aspectos da obra de Eduardo Teixeira Coelho - por Ercílio de Azevedo
3. Encontro com Rinaldo Traini em Annecy - artigo não assinado, mas escrito na primeira pessoa, o que significa tratar-se de prosa do próprio editor do fanzine
4. Sebastião da Gama e a Literatura Marginal (uma transcrição do "Diário de Sebastião da Gama")
5. Hergé. Yellow Kid Special -Lucca 72

                                                  Número 5 - Setembro de 1973
A capa reproduz um episódio da personagem "Anita Diminuta", com desenho de Jesús Blasco e argumento de A. Lomag

A ficha técnica deste número esclarece:
QUADRINHOS é um fanzine editado por Vasco Granja para informação das novidades bibliográficas nacionais e estrangeiras. 
Correspondência: Avenida Bartolomeu de Gusmão, 4-2º-D. - Damaia.

Reproduzo em seguida excertos de vários artigos que compõem o conteúdo do fanzine.
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ANITA DIMINUTA (*)
Texto de Luís Gasca
A história de "Anita Diminuta" é, como o seu nome, pequena e sem muitas anedotas, pródiga, sim, em incidências qual delas a mais disparatada. 
 "Anita Diminuta" nasceu no mundo da banda desenhada quase ao mesmo tempo que "Cuto", a outra grande criação de Jesús Blasco. A pequena heroína dos "tebeos" espanhóis, fez a sua primeira aparição numa revista tão reduzida no formato como o seu nome, chamada "Mis Chicas", quando o semanário "Chicos" modificou o seu aspecto. Desde o seu primeiro número, com a data de 2 de Abril de 1941, "Anita Diminuta" figura na capa, ocupando um lugar de honra que só abandonou, salvo raras excepções, ao transformar-se esta revista no semanário "Chicas", mais tarde.
"Cuto" é valente, decidido, um rapaz esperto, com a vida plena de aventuras plausíveis e em quem todos os pequenos leitores se identificam com facilidade. "Anita", pelo contrário, vive num mundo de ficção, de conto de fadas, onde nada é logicamente possível. E portanto agrada às meninas, que procuram não participar na acção mas apenas viver aventuras irreais. Outro aspecto que distingue as duas maiores criações de Blasco nos anos 40, "Cuto" e "Anita Diminuta", é a solidez dos argumentos dessa primeira criação, explendidamente construídos, perante certas debilidades da linha narrativa de "Anita", que dá por vezes a sensação de terem sido escritos sem ter em conta as incidências anteriores. Tudo isto, juntamente com marcados caracteres fantásticos, característicos da literatura de histórias de fadas, fazem de "Anita" um caso à parte na história do "comic" espanhol. (...)

(*) Em Portugal o nome foi transformado em "Anita Pequenita"
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I ENCONTRO NACIONAL DE BANDA DESENHADA
Organizado por Boommovimento, sob a orientação de António Pedro Pita e José de Matos-Cruz, efectuou-se nos dias 24 a 26 de Agosto, na Figueira da Foz, o Primeiro Encontro Nacional de Banda Desenhada, que teve a participação de cerca de uma centena de assistentes.
Alguns dos temas focados neste encontro: 
História geral do "comic"; 
Banda desenhada espanhola; 
Um novo autor francês: Druillet; 
Sociologia das histórias em quadrinhos (*); 
A banda desenhada em Portugal: autores, editoriais, fanzines.
Exposição de pranchas, fanzines e revistas, projecção de diapositivos, feira de edições, debates, discussão de projectos e distribuição de textos teóricos completaram esta interessante iniciativa. (...)"
(*) Este texto, escrito pelo faneditor Vasco Granja, reflecte a sua inclinação para usar o vocábulo "quadrinhos", mesmo quando o título desse livro publicado em Portugal, talvez o primeiro da especialidade, tenha o título de "Sociologia das Histórias aos Quadradinhos".
De notar também que faz o registo de um evento pioneiro em Portugal dedicado à Banda Desenhada, que, não se tendo chamado Festival, apenas "Encontro", teve vários componentes que constituiriam mais tarde o I Festival de Banda Desenhada de Lisboa, em Março de 1982.


                                                   Número 6 - Novembro de 1973



                                                      Número 7 - Janeiro de 1974


 
                                                               Nº 8 - Novembro 1974 

Último número do fanzine Quadrinhos, de que possuo duas versões diferentes, no que se refere à cor da capa, talvez devido a nova tiragem de uma quantidade não indicada de exemplares

 
Como já tenho escrito, os fanzines são sempre temáticos (BD, Música, Ilustração, Poesia), sendo os mais numerosos, entre nós, os dedicados à BD.
Dentro desse tema, eles dividem-se em:

1) Fanzines de banda desenhada (os que são preenchidos, na sua totalidade, por bedês);
2) Fanzines sobre banda desenhada (os que se dedicam a publicar textos sobre BD: estudos, críticas, notícias, entrevistas com autores, editores, coleccionadores, fanzinistas);
3) Fanzines com banda desenhada (aqueles que incluem artigos de diferentes temas, intercalados por apenas duas ou três bandas desenhadas.

O fanzine Quadrinhos começou por ser "sobre banda desenhada", como se depreende pela leitura da síntese do conteúdo do nº 0, totalmente preenchido por artigos e notícias.

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Quadrinhos - Fanzine de Banda Desenhada (*)
Fanzine aperiódico "para defesa e ilustração da banda desenhada
Formato A4, com número irregular de páginas, entre 10 e 18, sendo habitualmente de papel de cor (amarela, roxa, verde, rosa) a capa, ou primeira página, e o miolo constituído por folhas por vezes de cores variadas no mesmo exemplar, agrafadas com apenas um agrafe no canto superior esquerdo
Nº0 - Abril de 1972
Editor: Vasco Granja

("Se quiser receber o número 1 envie 5$00 em selos de correio para Avenida Bartolomeu de Gusmão, 4 - 2º -D. Damaia" - era a nota existente na página 2 do nº 0, de Abril 72)

(*) Editados 8 números, entre Abril de 1972 e Novembro de 1974. 
Por conseguinte, entre outros méritos, Vasco Granja foi um dos primeiros faneditores portugueses.
  
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A seguir reproduzo uma entrevista que fiz em 1984 na revista "Coleccionando" a Vasco Granja, faneditor do zine Quadrinhos


    Foto: G.Lino

                                            

Continuo hoje a tarefa de reproduzir entrevistas que fiz na década de 1980 a coleccionadores de banda desenhada. Vasco Granja, que sempre dividiu a sua actividade por duas artes - BD e Cinema de Animação - foi o alvo que escolhi nessa altura com destino às páginas da revista Coleccionando (nº7,Jun./Jul.1984).

A minha convivência com Vasco Granja já vinha desde 1976, aquando da fundação do Clube Português de Banda Desenhada-CPBD, de que fiz parte da direcção, e cujos membros eram praticamente todos clientes de Vasco Granja, na sua qualidade de importador de BD, que acumulava com a função de empregado da Livraria Bertrand e, mais tarde, com a de director da revista Tintin (nos derradeiros anos da publicação). 

Como a sede do CPBD era em Benfica, íamos uns tantos, após as reuniões aos Sábados, à Damaia, a casa dele, onde nos esperava com o "material" (termo carinhoso usado por nós) composto essencialmente por publicações estrangeiras (revistas e álbuns, e também fanzines franceses de estudo da BD), revistas espanholas e italianas, nada de comic books, e sim alguns livros americanos - monografias, por exemplo -, tudo espalhado sobre uma grande mesa na sala de jantar.

Em 1978, Vasco Granja convidou-me para fazer parte do grupo de portugueses (autores de BD, amantes de BD...) que iriam a Itália representar Portugal no pioneiro Salão Internacional de Banda Desenhada de Lucca.

Iniciava eu, assim, sempre com ele, uma série de participações em Lucca, em Angoulême, em Barcelona, nos respectivos eventos de BD. Daí o tratamento por "tu" que a certa altura passámos a usar, e que está patente na entrevista que reproduzo aqui por baixo, publicada na acima citada revista Coleccionando.

(Como é do conhecimento público, Vasco Granja faleceu a 4 de Maio de 2009).

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Quando comecei a coleccionar BD

... ainda nem sabia ler

- recorda Vasco Granja


Vasco Granja é um nome bem conhecido do público, quer o que se interessa pela Banda Desenhada, quer o que prefere o Cinema de Animação.

Efectivamente, ele tem desenvolvido notável actividade nestas duas áreas: o seu programa na TV é bem popular e, quanto ao seu esforço em prol da divulgação da BD, o Prémio Saint-Michel 72 que lhe foi atribuído na Bélgica pelo "Club des Amis de la BD-CBD" é a prova de que o seu nome há muito se projectou além fronteiras.


Vasco de Oliveira Granja nasceu em Lisboa, a 10 de Julho de 1925. A sua actividade na Banda Desenhada tem-se repartido por diversos campos: ele é, desde meados dos anos sessenta, importador e distribuidor de revistas de BD; foi director da revista Tintin - embora apenas nos dois últimos anos de existência daquela publicação -, mas foi o responsável pelos diversos suplementos e, em especial, pela secção "tintin por tintin" desde o segundo mês da existência da rubrica; como divulgador e estudioso iniciou-se com artigos sobre BD, Cinema e Animação no suplemento "Bastidores", do extinto jornal República, nos meados dos anos sessenta. 
Mais recentemente, ele tem colaborado na revista semanal TV Guia e no matutino Diário, sendo neste último que mais frequentemente se debruça sobre temas de banda desenhada.

Por agora, e atendendo às características da rubrica "Coleccionando BD", este contacto com Vasco Granja tem como objectivo conhecê-lo enquanto coleccionador da especialidade.
Ele possui exemplares de grande raridade, em especial edições estrangeiras. No que se refere a edições portuguesas, o seu acervo não será tão significativo, o que não quer dizer que não tenha sido, na fase inicial da sua vida, coleccionador de revistas de histórias aos quadradinhos.

Não é verdade, Vasco Granja?

- Sim, e isso desde os quatro ou cinco anos, quando ainda nem sabia ler. Nesse tempo, a família comprava-me, ou dava dinheiro para eu comprar, O Senhor Doutor, Tic-Tac, O Mosquito.
Comprei o primeiro número do Mosquito numa tabacaria que ainda existe na Rua da Rosa (aprendi a ler na Escola 12, situada nesta rua, na esquina que dá para a Rua da Atalaia).
Ansioso pela saída das revistas, visitava as instalações do Tic-Tac, Senhor Doutor, Mosquito, Pirilau...
Uma vez pedi emprego ao Cardoso Lopes...
No entanto, por volta dos doze anos, desisteressei-me da BD e ofereci aos elementos mais novos da família todas as revistas que tinha, o que hoje lamento.
Essa mudança deu-se a favor do Cinema e, por essa razão, passei a coleccionar revistas de cinema - Cinéfilo, Cine-Jornal, Animatógrafo...

- Tens algumas colecções de BD completas?
- As minhas colecções têm um carácter de consulta, não procuro completar a todo o custo as publicações que vou juntando, de banda desenhada, cinema, literatura, ecologia, naturalismo, arte, política,etc.
Apesar disso tenho algumas colecções completas: Cavaleiro Andante, Tintin, Visão, Jornal do Cuto, Phénix...

- Entre as colecções que possuis, qual a que consideras melhor, quanto ao conteúdo?
- A melhor colecção de revistas que possuo é a edição portuguesa da Tintin.

- Na tua opinião, qual é a colecção portuguesa de BD mais valiosa?
- Bem, aquela que tem maior cotação é, indiscutivelmente, a do Mosquito. É aquela que é mais procurada.

- Estás neste momento a coleccionar alguma revista portuguesa de BD?
- Não.

- Qual foi a última que coleccionaste, número a número, à medida da sua publicação?
- Tintin.

- Estás a coleccionar alguma revista estrangeira de BD?
- Diversas: (A Suivre), Metal Hurlant, Totem, Rambla, Circus, Comix, Ilustración, Schtroumpf-Les Cahiers de la BD, Nemo, Epic, Heavy Metal, Linus, 1984 (que já acabou)... São tantas!

- No que se refere a álbuns, revistas ou livros sobre BD, tens algumas peças valiosas?
- Julgo ter algumas peças de valor no que se refere a álbuns de banda desenhada oferecidos pelos autores.
É difícil distinguir, no entanto destaco obras de Hergé (o exemplar nº 429 de uma tiragem especial de quinhentos exemplares de "Les Aventures de Tintin au Pays des Soviets"), Jacobs, Jacques Martin, Hugo Pratt, Jijé, Palacios, Blasco, Craenhals, Ribera, Godard, Bob de Moor, etc.

- Para além dessas peças valiosas de BD, e das revistas estrangeiras, coleccionas mais alguma coisa?
- Colecciono selos (guardo todos os que tenho encontrado desde miúdo), correspondência variada, romances, poesia, ensaio (oferecidos por autores como Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Raul de Carvalho, António Ramos Rosa, José Gomes Ferreira, Vitorino Nemésio, etc.); filmes (tenho quase toda a obra de Norman McLaren), originais de banda desenhada (Eduardo Teixeira Coelho, Al Williamson, Philipe Druillet, Mort Walker, Alfred Andriola, etc.), grande variedade de livros de cinema (história, biografia, crítica, sociologia, técnica); discos (todas as sinfonias de Beethoven, óperas como "Carmen", a obra completa dos Beatles, Simon e Garfunkel, Bob Dylan, etc.; grande variedade de cartazes de filmes da Campanha de Dinamização Cultural, de festivais de diversa natureza.
Colecciono também postais de todos os lugares por onde tenho andado e também uma grande variedade de roteiros de viagem, guias turísticos, monografias sobre paisagens, monumentos, etc.
Colecciono fotografias de filmes, programas de cine-clubes quando enfrentavam a censura.
Colecciono jornais (República, por exemplo) e recortes acerca da evolução política em Portugal eno mundo desde a Segunda Guerra Mundial.
Colecciono entrevistas gravadas com cineastas e autores de BD. Muitas delas encontram-se inéditas.
Colecciono tudo o que se refere ao cinema soviético, com destaque para Vertov e Eisenstein.
Colecciono fotografias de família e de personalidades com quem tenho contacto e também de manifestações populares.

- Lembras-te de algum episódio pitoresco ligado às tuas actividades na BD ou no Cinema?
- Uma vez, em 1979, fui a Moscovo em busca de elementos acerca do cineasta Dziga Vertov, falecido em 1954. Recebido na União de Cineastas da URSS, expus o meu programa. Indiquei que gostaria de encontrar o crítico cinematográfico Fevralski, que em 1925 escrevera na Pravda a propósito de Vertov e da sua atitude inconformista, defendendo os seus pontos de vista. Ignorava se Fevralski ainda era vivo. Ninguém mostrou saber alguma coisa dele. No dia seguinte, Fevralski, tendo cerca de oitenta anos, aguardava-me no referido local. Sabia algumas palavras em português. No dia seguinte, em sua casa, mostrou-me a sua colecção de livros portugueses: Eça de Queirós, Alexandre Herculano, peças de teatro, volumes sobre a História de Portugal.

- Tens alguma recordação desagradável em relação à perda de exemplares ou colecções que tenhas possuído, ou relacionada com as tuas actividades na Banda Desenhada?
- Não se trata bem de uma recordação desagradável, mas a primeira vez que contactei E.T.Coelho em Florença, equipado de gravador e câmara fotográfica, o desenhador recusou ser entrevistado.
Todavia, permitiu-me uma longa conversa de cinco horas, decorridas em sua casa, num restaurante e nas ruas de Florença, repletas de História. 

domingo, 5 de março de 2017

Café Noir - Prémio do Melhor Fanzine em Angoulême 89





Uma publicação editada por uma associação sem fins lucrativos classifica-se de fanzine, mesmo que tenha apresentação visual ao nível de uma revista profissional/comercial, esteja registada no ISSN e no Depósito Legal. 

Assim se justifica, pela aplicação correcta do conceito de fanzine enquanto publicação amadora, que Café Noir (nº5 - Printemps 89) tenha sido distinguido com o Prix du Meilleur Fanzine - Angoulême 89, como se pode ler no canto superior direito da capa.

Para ajudar a suportar os custos de edição de um objecto gráfico ao elevado nível do Café Noir - impressão em offset, papel couché de elevada gramagem, capa e contracapa a cores -, a Association Philactère, de Canteleu, França (uma associação cultural sem finalidades de lucros) recorreu ao apoio de uma outra entidade de índole cultural, o Centre National des Lettres, como também se pode ler no rodapé da capa.

É crucial ter em consideração tão determinante pormenor - o da esmerada produção de uma publicação não lhe retira o estatuto fanzinístico - no que concerne à correcta atribuição da categoria de fanzine a qualquer produto impresso com aspecto exterior de luxuosa revista profissional/comercial.
O conceito de fanzine vai além da excelência técnica do objecto gráfico-literário produzido, prende-se antes à condição do editor amador, faneditor, ou à entidade de âmbito cultural sem fins lucrativos envolvida na edição, sob cuja chancela e apoio financeiro é publicado o objecto.

Café Noir
Publié par l'Association Filactère
Canteleu - France
Formato: 21x29,7cm (A4)
68 páginas     

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Os interessados em ver posts anteriores dedicados a fanzines Estrangeiros BD, poderão fazê-lo clicando nessa rubrica visível em rodapé