quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas


 
 Capa do mini-álbum

EDIÇÕES ALTERNATIVAS COMERCIAIS (*)

"Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas" é o título completo desta curiosa edição feita em Portugal, embora legendada em inglês.

Marco Mendes é autor único deste álbum, composta quase totalmente por bandas desenhadas em que ele próprio é personagem, o que configura uma obra de tipo monográfico, completada por ilustrações e retratos, tudo da autoria do talentoso artista, autor de BD, ilustrador e retratista.

E classifico o pequeno álbum como edição alternativa comercial, definição que uso pela primeira vez, pela necessidade de fazer a distinção entre um fanzine - também uma publicação alternativa, mas não comercial -, e este álbum, produzido no Porto por uma editora independente, a qual, embora pequena, é organizada em moldes comerciais, a Plana.

Disse-me o Marco Mendes que a edição em inglês terá sido uma ideia de Luís Camanho, dono da citada editora, a fim de ser enviada para editoras independentes estrangeiras, embora, ao que parece, a pequena tiragem tenha sido já quase toda vendida a bedéfilos portugueses.

Vejamos o contéudo (apenas uma parte, claro):




A personagem retratada chama-se Lígia Paz, ex-namorada de Marco Mendes (não está identificada, mas reconheço-a bem, porque a conheci em Fevereiro de 2008, quando veio à Tertúlia BD de Lisboa, juntamente com Marco Mendes, data em que ele foi o Convidado Especial.).

Embora menos reconhecível, eu arriscaria afirmar que foi também ela que serviu de modelo à sugestiva figura feminina da ilustração da capa.
E quanto à personagem masculina, travestida, julgo que será o próprio Marco Mendes, que, com frequência, se autorretrata nas suas bandas desenhadas, e nesta ele está presente em quase toda a obra.  

Note-se que em Fevereiro de 2017, data deste post, passados cerca de nove anos após a edição sob análise, a sua imagem está ligeiramente diferente devido à falta de cabelo.

O par de namorados/intérpretes Marco Mendes & Lígia, numa cena de comicidade irresistível.



Marco Mendes & Lígia, grandes intérpretes destes curtos episódios



Marco Mendes nem sempre feliz, na sua auto-observação e nas angústias da falta de inspiração e dificuldade na criatividade.


Note-se que, à maneira das bandas desenhadas publicadas nas antigas Sunday pages dos jornais americanos, Marco Mendes inclui em rodapé uma narrativa diferente da que ocupa a parte superior da página.
 


Marco Mendes e os seus amigos perante os problemas da vida de uma geração que trabalha a recibos verdes... Note-se que a data destas duas últimas pranchas é de 2008, e a situação mantém-se.

 
Lígia Paz muitíssimo bem desenhada, com amor evidente, mau grado a frase dela (faz parte da ficção...)

Mais um retrato incluído no álbum, o de Janus (com impecável semelhança), um amigo de Marco Mendes, portuense, também ilustrador/autor de BD. 

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Ficha técnica
Tomorrow the Chinese Will Deliver the Pandas
Edição alternativa comercial em inglês
Tradução de Pedro Moura e Elisabete Pinto
Álbum em formato 17x24cm
Capa a preto e branco e magenta
Miolo: 32 páginas a preto e branco 
Data da edição: Junho 2008
Editor: Luís Camanho
Publicado por PLANA, Porto
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(*) Porquê edição alternativa comercial e não fanzine? Qual a diferença?

Um fanzine é uma publicação alternativa, amadora, um magazine feito sem intuitos lucrativos por um faneditor (editor amador), ou por um grupo de entusiastas (editores amadores), ou até por uma associação sem fins lucrativos.

Uma publicação alternativa comercial tanto pode ser uma revista como um álbum, editadas por uma pequena editora normalmente considerada "editora independente", por se dedicar a um tipo de publicações de temas geralmente não tratados pelas grandes editoras, mas igualmente com fins lucrativos, pormenor que marca a ténue fronteira que as separa dos faneditores e seus fanzines.
No caso da edição de BD, prevalece a banda desenhada de cariz underground, dita alternativa.
 
(*) Nota: Trata-se de opinião própria, não extraída de qualquer obra publicada.

Geraldes Lino

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Já Paça

1ª prancha da banda desenhada de Rigo "Já Paça"

Este fanzine, com uma capa enigmática (um semi-rosto), foi editado pelo autor madeirense Rigo, em Fevereiro de 1985. Mas, infelizmente, não foi na Madeira que ele o editou - com pena minha, que não tenho nem conheço nenhum zine daquela região insular -, mas sim em Lisboa.


                          Capa do fanzine "Já Paça"


                   2ª prancha/página da bd
  







                     Contracapa do fanzine

                       
O estranho título Já Paça do fanzine apenas se conhece no verso da contracapa, onde o editautor Rigo o registou, em manuscrito. (*)

Quanto a esse título, ele deriva do da sua banda desenhada, que ocupa quase todo o corpo da publicação (e do qual apenas se reproduzem aqui no blogue algumas das pranchas/páginas). Na última reproduzida no zine, o autor escreveu na margem direita, na vertical: Já Paça - Rigo -1984.

Não conheço - estive quase a conhecê-lo numa apresentação em Lisboa, mas não pude estar presente - esta ecléctica personagem madeirense, autor de BD, fanzinista, faneditor e artista
Dele apenas fiquei com a ideia de que, na BD, a sua tendência bem visível é a de usar o sexo e a violência como formas de transmitir as suas próprias pulsões, dando para o exterior sinais da sua personalidade artística criativa, anti-tabús e anti-preconceituosa. 


(*) Ficha técnica (escrita manualmente pelo editor, e reproduzida ipsis verbis)
Lisboa, Fevereiro 85, "Já Paça"
Primeira edição: 500 exemplares
Off-set, edição a cargo do autor e de Rui Carvalho (um alienígena)
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Elementos acrescentados por este "blogger": 
Editor: Rigo, co-editor Rui Carvalho
Capa em cartolina de cor (tonalidade creme).
Formato A4
Miolo: 28 páginas p/b
Encadernação com argolas plásticas
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Rigo

Síntese biobibliográfica

Ricardo Gouveia aka Rigo, Madeira, 1966.

Retiro, com a devida vénia, um texto a seu respeito da Wikipedia: 

He is known in the San Francisco community for having painted a number of large, graphic "sign" murals including: One Tree next to the U.S. Route 101 on-ramp at 10th and Bryant Street, Innercity Home on a large public housing structure, Sky/Ground on a tall abandoned building at 3rd and Mission Street, and Extinct over a Shell gas station.[1]
Rigo was born and raised on the island of Madeira. He later established himself as an artist in San Francisco, earning a BFA from San Francisco Art Institute in 1991 and an MFA from Stanford University in 1997.[2] From 1984-2002, Rigo used the last two digits of the current year as part of his name, finally settling upon "23" in 2003.[2][3]
The bulk of Rigo's work more literally highlights world politics and political prisoners from the Black Panthers and the Angola Three to Mumia Abu-Jamal, whose conviction for the murder of a policeman is contested, and the American Indian Movement's Leonard Peltier. Rigo create a controversial statue of Peltier that was removed from the grounds of the American University in January 2017.[4][5]
In 2005, he created a statue based on the 1968 Olympics Black Power salute titled Victory Salute, a twenty-two foot tall monument of two men: Tommie Smith and John Carlos. In the 1968 Olympic Games in Mexico City, these men each raised a black-gloved fist for human rights. Their simple gesture of the hand is considered as one of the most controversial statements of political and social activism in Olympic history. Victory Salute is a monument of that moment which was specifically built on the San Jose State University campus because Smith and Carlos were both student-athletes at the college.
Rigo is one of the founding members of Clarion Alley Mural Project collective and is still an active member, as of 2006, as well as an occasional professor at The San Francisco Art Institute.[2][6] He has also designed several installations as part of the 2006 Liverpool Biennial.[7] He is considered by some art critics and curators to be part of the first generation of the San Francisco Mission School art movement.[8][9] His work is in the collection of di Rosa.[ 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Tertúlia BDzine nº 159


 


O Tertúlia BDzine é, no fanzinato português, o fanzine com mais números publicados, sendo o 184 o mais recente, datado de Novembro 2016. Faz parte da actividade editorial amadora da Tertúlia BD de Lisboa, associação informal com encontros mensais desde Junho de 1985, frequentada por gente que tem a ver com banda desenhada - autores (argumentistas e desenhadores), editores (profissionais e amadores), livreiros, fanzinistas e coleccionadores.

O nº 159 que aqui se apresenta tem data de Maio de 2011, sendo composto por uma banda desenhada (argumento e desenho) de Nuno Duarte "Outro Nuno" (1), em que ele próprio (muito bem auto-retratado) é personagem principal da curta de banda desenhada "Eu Sou Uma Nódoa ou, prontes, tá bem Lino, eu faço uma BD".

Lemos os seus pensamentos - é fácil, basta ler as legendas que inscreve nos cartuchos (2) - e acompanhamo-lo nas suas angústias de criatividade do autor perante o espaço em branco, (ou no papel ou no suporte virtual da Net), em especial no que tem a ver com a componente do argumento/guião. Porque, na realidade, em termos de desenho, Nuno Duarte não tem qualquer hesitação nem as antes citadas angústias de criatividade, ele desenha como respira.

E afinal, inteligentemente, o autor (argumentista/desenhador) acabou por criar, à base das dificuldades de que se queixa ao longo das quatro pranchas, uma trama que provoca ávida curiosidade no leitor/visionador à espera do resultado da tarefa a que o autor meteu ombros, mas que afinal nunca se desenvolve nem resolve. Também é verdade que, depois daquele começo arrastado e angustiado, seriam necessárias mais outras quatro pranchas para a trama se deslindar...

Quem conhecer o Parque Mayer, antes um espaço emblemático de Lisboa e agora reduzido ao Cine/Teatro Capitólio e ao único restaurante que lá continua, teimosamente, a existir, reconhecerá o "A Gina" no retrato que fez Nuno Duarte na última vinheta da excelente curta de BD. 

Ficha técnica
Tertúlia BDzine
Nº 159 - Maio de 2011
Colaboração de: Nuno Duarte, autor da bd "Eu Sou Uma Nódoa"
Formato do zine: 4 folhas A4 (uma folha A3 dividida ao meio)
Cópia digital a preto e branco
Fanzine aperiódico
Editor: Geraldes Lino
Tiragem: 100 exemplares
Distribuição gratuita na Tertúlia BD de Lisboa

Nota do blogger: Este fanzine, editado já quase há seis anos, insere-se numa retrospectiva, aleatória, que estou a fazer tentando completar a amostra de zines portugueses de BD que já existia mas que se perdeu num apagão do presente blogue.

   

(1) Quando este desenhador começou a fazer bandas desenhadas, assinando Nuno Duarte, chamei-lhe a atenção para o facto de na área da BD haver, já alguns anos, um argumentista com esse mesmo nome. 
Com alguma relutância, e até algum desgosto, ele passou a assinar com o pseudónimo "Outro Nuno". 

 (2) Cartucho, na nomenclatura da BD, é o espaço fechado geralmente em forma de rectângulo, que contém descrições do narrador ou mesmo pensamentos das personagens.
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Os visitantes deste blogue que queiram ver as postagens anteriores dedicadas a este fanzine, poderão fazê-lo clicando no item Tertúlia BDzine visível em rodapé 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Livros sobre Fanzines, Os meus (III) - The World of Fanzines - Autor: Fredric Wertham




The World of Fanzines - A Special Form of Communication é um livro importante para o conhecimento do fenómeno fanzinístico, além de ser, se não o primeiro, um dos primeiros estudos acerca do tema, tendo sido editado em 1973.

Fredric Wertham (*), médico psiquiatra americano, foi autor de várias outras obras: "The Brain is an Organ", "Dark Legend", "The Show of Violence", "Seduction of the Innocent", "The Circle of Guilt", "The World Within" (com Mary Louise Aswell) e "A Sign for Cain".

Para os apreciadores de Banda Desenhada, Wertham é um nome com ressonâncias bastante controversas. O ataque que desferiu, no seu livro "Seduction of the Innocent", contra os "comics" americanos, considerando-os perniciosos para a juventude, acusando-os de males psicológicos causáveis aos leitores de bandas desenhadas de cariz violento e que à violência incitariam, teve influência no aparecimento do Comics Code Authority, conjunto de regras que impunham normas moralizantes para os autores/artistas, e transversalmente para as próprias editoras, bem como para as Syndicates (não sindicatos, como por vezes há quem traduza, mas sim agências) dos Comics, ou seja, da Banda Desenhada americana.

Capa realizada por Roy G. Krenkel para o fanzine "Comic Fandom Monthly" (datado de Out. 1971), reproduzida no livro "The World of Fanzines", que Fredric Wertham terá consultado para tomar conhecimento de um fenómeno fanzinístico que tanto o surpreendeu

Curiosamente, numa fase já bem madura da sua vida - contava setenta e oito anos, quando foi editado o The World of Fanzines -, Wertham debruça-se sobre este tipo de publicações onde, entre os seus temas, constava a Banda Desenhada.

Obviamente que isso não implicou a alteração dos seus pontos de vista, mas é curiosa a forma positiva como encara os fanzines nesta obra inesperada na sua bibliografia.

Alguns excertos do estudo:

"(...) Briefly defined, fanzines are uncommercial, nonprofessional, small-circulation magazines which their editors produce, publish, and distribute. They deal primarily with what they call fantasy literature and art. The fact that they are not commercially oriented, may come out irregularly, and are privately distributed differentiates them from the professional newsstand magazines. (...)"

"(...) There are several reasons for the general neglect of fanzines. One is that they are unconventional and, as D.H. Lawrence wrote, "men can only see according to a convention." Another reason is a certain intellectual snobbishness which is certainly not alien to our literary and academic establishments.
How did I get interested in this subject? My acquaintance with fanzines began long before I knew the term. In 1942 in connection with a discussion of the problems of the relation between psychology and literature and myth and reality, in my book Dark Legend (1941), a young man showed me copies of a small amateur journal which had started publication in the late thirties. It dealt with science-oriented Utopian fiction. Only much later did I realize that it belonged to a distinct variety of publication, that it was, in fact, a "fanzine". (...).

"(...) When the first amateur fan magazine was actually called a fanzine is not quite clear. (**) According to Linda Bushyager, in Granfallon 9, quoting Bob Tucker, an authority on early fantasy amateur publications, the first one came out in 1930. It was called The Comet and dealt with science and science fiction. (...)" 

"(...) Prozines, as opposed to fanzines, are magazines written by professionals. A prozine critic may have a very different from a fanzine one. (...)"   
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(*) Fredric Wertham (1895-1981) nasceu na Alemanha, em Munique. Estudou no londrino Kings College, e nas Universidades de Munique e Erlangen (ironia do destino: um homem, nascido alemão, que tanto atacou a BD, estudou na cidade universitária de Erlangen, que hoje é bem conhecida pelo seu importante festival de Banda Desenhada, provavelmente o mais importante que se realiza na Alemanha).

Terminou o seu curso em 1921 na Universidade de Würzburg. Em 1922 mudou-se para os Estados Unidos, onde obteve a respectiva nacionalidade em 1927.

The World of Fanzines: A Special Form of Communication, editado pela Southern Illinois University Press, em 1973. Esta é a data que consta no meu livro, contrariando a de 1974, registada num extenso e aparentemente bem documentado artigo escrito por Dwight Decker, consultável na Internet.

Este Dwight Decker, que em 1969 era um apreciador de fanzines, considerando-os veículos de expressão pessoal - ele próprio editor de um, intitulado "Torch" -, chegou a corresponder-se com Wertham, na mira de o entrevistar para aquele seu fanzine.

O curioso é que o psiquiatra mostrou-se interessado no tema, tendo começado a contactar faneditores para lhe fornecerem os respectivos zines, e foi assim que obteve material para escrever o livro "The World of Fanzines".

(**) Muito posteriormente à publicação deste estudo, soube-se que o neologismo fanzine tinha sido criado em Outubro de 1940 por Louis Russel Chauvenet, americano de Boston, no seu próprio magazine amador intitulado Detours. Consta que terá ocorrido a Russ Chauvenet a noção de que quem editava este tipo de magazines eram os fãs de vários temas, designadamente de banda desenhada (comics) e de ficção científica. Daí ter-lhe ocorrido fazer a contracção da palavra fan (de fanatic, no sentido positivo de entusiasta) com as duas últimas sílabas de magazine, o vocábulo que também foi muito popular na Europa nas décadas de cinquenta e sessenta, depois substituído e praticamente eliminado em Portugal pelo vocábulo revista.